Entrevista com Dr. Giovani Saavedra

O Homem do Compliance. Entrevista com Giovani Agostini Saavedra, Presidente do Instituto Arc.

by Diorman Werneck

Giovani Saavedra, um dos maiores nomes quando o assunto é compliance. Muito obrigado por ter aceito nosso convite para essa entrevista.

Sua formação é em direito? Como surgiu seu interesse pela área? Desde pequeno, meu pai me falava que eu seria auditor. Eu não tinha ideia do que significava, mas meu pai falava com tanto orgulho, de eu atingir algo que era seu sonho, que eu me empolgava com a ideia. Quando atingi a idade para universidade, começou a se tornar popular o uso de computadores, o que me chamou muito a atenção desde o início. Então, comecei a me dedicar a área de programação. Eu aprendi a programar de maneira autodidata e fazia pequenos programas para empresas com ajuda e uma amigo. Em função disso, fiquei em dúvida, quando chegou o momento de escolher a faculdade que queria cursar. Minha irmã acabou me dando a ideia de que deveria fazer um estágio na área para ver se realmente iria gostar. Rapidamente percebi que programação era um hobby, não era algo que gostaria de fazer todos os dias, então, acabei optando por direito e, depois, acabei me apaixonando por Compliance. Hoje, sou Presidente de um Instituto e de uma Associação focados em auditoria, então, (risos) acabei também de maneira indireta realizando o sonho do meu pai de ter um filho auditor.

Pesquisando descobri que o senhor escreveu o primeiro artigo sobre Compliance Criminal no Brasil, é verdade? Como surgiu seu interesse pelo tema? Sim, é verdade. Meu caro amigo Paulo Suzart sempre refere em suas palestras esse ponto e outros queridos amigos lembram desse fato o tempo todo. A verdade é que fui convidado, se me lembro bem, em 2010 para escrever um pequeno texto para boletim do IBCCRIM. Eu estava estudando Compliance Criminal e resolvi escrever a respeito. O texto foi publicado e depois me convidaram para dar uma palestra no IBCCRIM sobre o tema. Desde, então, meus queridos amigos do IBCCRIM referem sempre esse texto como uma referência importante sobre o tema.

Conversando com vários players do mercado, vários se referiram a você como “o Homem do Compliance”sempre com uma admiração respeitosa. De onde veio essa expressão? (ehehe) é verdade. Essa é uma história bem interessante. Logo que voltei da Alemanha, no meu período de doutorado na Alemanha. Eu escolhi o tema de Compliance como tema de pesquisa na universidade e como área de atuação como advogado. Quem me conhece sabe, que, quando coloco algo na cabeça, vira praticamente uma obsessão. Então, em todas oportunidades, que me chamavam para falar e escrever, eu falava sobre Compliance. Tanto que meus amigos começavam a dizer jocosamente: “lá vem o Homem do Compliance”. O comentário tinha um quê de ironia, porque achavam que eu estava exagerando. Mais tarde, após a promulgação da nova lei de lavagem, do Mensalão, da nova lei anticorrupção e etc., ou seja, quando o Compliance virou moda… O pessoal a usar a mesma impressão, “lá vem o Homem do Compliance” (o entrevistado mudou a expressão, adotando um tom de seriedade na expressão), mas agora com, como você disse, uma “admiração respeitosa”.

Na última edição da Revista 500, você foi eleito em primeiro lugar o advogado mais admirado do Brasil na área de Compliance? Que conquista, hein? Como foi para você receber essa distinção? Foi um supresa. Como se sabe, a eleição é feita em consulta a diretores de departamentos jurídicos e os indicados só ficam sabendo, quando a revista é publicada. Fiquei sabendo, porque os advogados do escritório começaram a me parabenizar. Para mim, foi o coroamento de um caminho de muito esforço e dedicação. Nada veio fácil para mim e o caminho foi bem difícil. Então, ver meu nome lá, em primeiro lugar, foi emocionante.

Além de atuar como advogado, palestrante, escritor e empresário, você atua há muitos anos na área acadêmica. Como professor qual foi é a maior lição que você se preocupa em passar aos alunos? Eu acho que hoje em dia há uma certa superficialidade na maneira como se estuda. Acho que, se por um lado, o avanço da tecnologia contribui e muito para melhora das nossas vidas e aumento nosso acesso à informação, por outro lado, a impressão que tenho é que nossos alunos e alunas passaram a ter menos interesse pela leitura de textos complexos e menos interesse por temas complexos. Eu tento ensinar que a leitura, a abordagem complexa, o enfrentamento de temas difíceis é muito importante para nos desenvolvermos como profissionais. Procuro estimular-los a ler mais e ver menos televisão, a buscar o aprendizado de novas línguas, de frequentar o teatro, de ir a uma ópera, de estudar filosofia, de procurar estudar os clássicos. Na verdade, eles sempre elogiam minhas aulas, dizem que sou muito didático, que consegui ensinar temas difíceis, que tenho abordagens sempre inovadoras e me perguntam como consigo. Sempre digo que isso é fruto de muita leitura e de trabalho duro. Precisamos mostrar para nossos alunos e alunas, que estudar envolve esforço, mas que o resultado é um trabalho de melhor qualidade. Além disso, esforço-me sempre para ser um exemplo de caráter, justiça e ética. Acho que, hoje em dia, ensinar o valor de palavra que se dá, de cumprir com as promessas, de respeito do outro é muito importante.

Quais os desafios o senhor tem/teve ao assumir a presidência do Instituto ARC? Foram vários. O Instituto ARC já era muito conhecido e tinha uma reputação estabelecida no mercado, quando o Christian me convidou para integrar a sociedade. Nesse sentido, foi excelente assumir um cargo de tal relevância e sou muito agradecido ao Christian por esse convite, mas havia ainda muito a ser feito, especialmente no que concerne a ampliação das possibilidades de certificação e consolidação do papel do ARC como instituto líder na área de Compliance.

O senhor tem dois doutorados na Alemanha e tem muitos amigos ao redor do mundo devido a sua vivência no exterior. Sua amizade com o Dr. Christian De Lamboy começou na Alemanha? Não, mas, em certa medida começou, por causa da Alemanha. Eu fui convidado pelo Diretor da Alliance for Integrity, uma iniciativa do governo alemão, para atuar como expert auxiliando na constituição do projeto no Brasil. O evento ocorreu na Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo e o Christian estava presente. Ao final do evento, ele veio na minha direção e, nunca me esqueço, ele falou diretamente: “Ich möchte mit Ihnen arbeiten” (Eu gostaria de trabalhar contigo). Ele foi tão direto e parecia tão certo dessa ideia, que eu fiquei surpreso no início. Marcamos de conversar e, depois de algumas reuniões, entendi que ele queria mesmo que eu entrasse no Instituto ARC para dividir a condução do Instituto. Foi início de uma grande amizade.

Como surgiu o convite para assumir a presidência do Instituto ARC? A ideia inicial do Christian é que nós dois coordenássemos juntos o Instituto. E estávamos tocando desta maneira até que ele recebeu o convite para assumir a área de Compliance da Volkswagen. Ele me ligou, contou da novidade, disse que iria aceitar e perguntou se eu poderia tocar o Instituto. Eu aceitei o convite.

Quais mudanças podemos esperar para essa nova fase do Instituto ARC? O ARC tem um DNA de qualidade e seriedade, que nunca pode ser modificado, porque é a sua marca. Portanto, sem mudar essa sua essência própria, o ARC quer se consolidar cada vez mais como líder do mercado na área de Compliance. Temos um grande projeto pela frente. De todos os projetos, gostaria de citar alguns, que são bem especiais para mim: o Programa Alumi, que envolve todo um processo de formação continua, geração de networking e geração de oportunidades para os ex-alunos do ARC. Os ex-alunos e ex-alunas do ARC, que passarem a integrar o programa terão uma carteirinha numerada do programa e poderão participar de várias iniciativas e promoções do Instituto, como, por exemplo: serão convidados a participar com artigos dos novos volumes do Manual de Compliance do Instituto, a escrever para os blogs do Canal Compliance, a integrar o Comitê Organizador do Congresso Integra – Compliance Across Americas e, assim por diante. Outro projeto relevante é que o Instituto ARC quer se consolidar como referência na área de certificações de Compliance. Esse é um projeto estratégico do Instituto para os próximos anos. Queremos também ampliar a oferta de cursos no exterior, mudamos o logo do ARC, o site, temos todo projeto de marketing novo, dentre outras atividades.

Qual importância de se contratar compliance officers com uma boa formação? Compliance virou uma moda. Isso é positivo, mas pode ter efeitos colaterais negativos. Há muita gente falando sobre Compliance, mas há pouco trabalho de qualidade. Nesse sentido, formar e qualificar Compliance officers vai contribuir para aumentar a régua, aumentar a exigência e, consequentemente, estimular a todos e todas no mercado e se aprofundarem sobre o tema.

Recentemente o Instituto ARC anunciou o Programa Alumni. Quais objetivos e benefícios esse programa trará para os alunos e ex-alunos do Instituto? A ideia é mostrar, que o ARC não é só um organizador de cursos. Ele quer garantir aos seus alunos uma formação integral e viabilizar um apoio contínuo na construção de suas carreiras. O ARC quer mostrar aos seus alunos e alunas, que é seu parceiro na construção de suas carreiras gerando oportunidades, networking, formação contínua etc. As vantagens e benefícios são várias: com o cartão do aluno, os alunos e alunas do ARC vão ter descontos em todas as atividades do ARC e, como disse antes, não quero me repetir, vão ser convidados a escrever para os novos volumes do Manual de Compliance, vão integrar o corpo de auditores das certificações do ARC, vão ser convidados a participar do comitê organizador do Congresso do Integra – Compliance Across Americas, dentre outras várias oportunidades.

Como o senhor avalia os avanços da cultura compliance no Brasil? O Brasil está avançando a passos largos na área de Compliance. Tudo indica que a indicação do Moro para o Ministério da Justiça vai reforçar esse processo. É de se esperar nos próximo anos, que o Brasil passe a ter legislação mais dura no combate à Lavagem de Dinheiro e ao Terrorismo, a criação de um tipo penal de corrupção no setor privado, um endurecimento do combate à corrupção e um aumento da importância do Compliance.

Muito obrigado!

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